no samba
para P.
ontem no samba entendi que deveríamos parar de ler não importa o que sabemos nós temos que ir ao samba. assistiríamos (assistimos) nossos corpos assumindo entidades serelepes e sólidas o que é igual a uma certeza em dezembro de dois mil e vinte e cinco, falo com a boca de batom vermelho, não bebo mais nem prometo nada. o corpo se assume, começa e termina sem nunca acabar, é um igual diferente (sentimos) e é físico não da física mas do que pode servir ao toque, não tô falando de safadeza, é físico: você mexe os pés e tira a atenção da torre de controle, a cabeça. sem essa de majestade. imagina um saco de feijão de um quilo você pega na mão e onde seus dedos apertam um espaço se cria e os grãos ocupam os cantos antes vazios do saco, eu tô falando de ocupar o espaço todo de forma igual-esparramada, o corpo dentro do corpo, daí que o saco de feijão foi empilhado pra se preencher e teve restringida alguma liberdade porque tantos outros o definem agora, e se mexeu menos mas se mexer menos pode ser ocupar muito bem um espaço menor ou significa ficar preenchido de forma igual, quem se livrou de algum controle e do que eu tô falando? me impressiona muito essa coragem que meus dedos têm, quem vai ler no natal cadê a foto minha família, a coragem dos bêbados, nos dedos, nem te conto o que foi que eu disse pra L. depois de duas doses de um single malte e uma cerveja tô quase arrependida eu tava dizendo: no samba: o corpo fica sendo o corpo e se mexe com um equilíbrio entre tônus e presença, todas as células preenchidas, aquela ferramenta de preencher do Paint, até sua postura fica existindo pra um adjetivo tipo altiva, sem a soberba. com álcool demais algo se perde algo se cria fica divertido e muito patético chorei de rir e chorei de chorar na mesma medida a ordem foi chorar rir chorar rir chorar rir chorar não lembro qual foi o último olha é ridículo e também chorar e rir intercalado assim tipo festas de fim de ano monstro das cores me faz desvalorizar as duas ações na mesma medida. eu tava descalça e de vez em quando alguém me avisava: entre aquelas duas mesas quebraram uma garrafa. eu estava segura. é muito besta viver. nossas emoções moram no quadril o que não explica eu ter chorado antes mas sim depois do samba, e durante, o samba põe tanto o corpo dentro do corpo, você já entendeu. desde muito fazemos roda pra rezar. eu tava descalça. de vez em quando alguém me avisava. eu estou segura.
21.12.2025


“me impressiona muito essa coragem que meus dedos têm, quem vai ler no natal”
Desejo que seus dedos continuem corajosos. Eu leio no Natal! Fui ao samba com você, ri e chorei emocionada com seus movimentos serelepes. Lindo!!!!!