chove muito o guarda-chuva quebrou
a corrida do aplicativo tá custando um milhão
a criança me espera na escola
a criança não vê problema nenhum, é chuva
nem as plantinhas
chego quinze minutos atrasada, o cabelo
tá vendo?
a coordenadora chama o guri pelo microfone
ele corre a rampa com os pés de chinelo
e me abraça
oi, mãe
não sei quando foi que o mamãe caiu
visto um shorts de malha amarelo clarinho
uma blusa bem branca
pareço inteligente de longe
imagina quando ele quiser colo
ele pisa em todas as poças
especialmente nas poças que se formam
entre o asfalto e o meio fio, são rios
Levi molha os pés nos rios
agora chuvisca
o guarda-chuva quebrado vira um cajado
confio muito nos pés da criança, molhados
pequenas folhinhas e respingos de terra nas panturrilhas
atravessamos a grama do parquinho
são dois quilômetros até a casa
olhamos pro céu com toda extensão do pescoço
e abrimos bem a boca
ainda bem que eu não vim de carro
o gosto da chuva é azul
mas a chuva não é azul
Levi corre até o próximo rio
depois entra no mercadinho do bairro
mexe nas guloseimas do balcão
pega na mão uma embalagem de biscoito japonês
eu digo que não
e um pirulito?
você quer esse mel de saquinho?
1,50 no débito
as moedas estão em extinção
três senhores bebem cerveja no balcão
peço licença
vou com a criança até o banheiro
pra lavar a embalagem do mel
o banheiro recende a xixi e cerveja
se eu mexer na torneira, depois de lavar a embalagem
uma pergunta sem convicção
compro tudo quando compro o mel
na saída um senhor desses pergunta
se pode comprar o biscoito japonês pro guri
ele parecia curioso, né?
agradecemos
o guri agarra o pacote de Yaki manju
e prova em seguida e de boca cheia
acena um joinha pro senhor
seguido de um tchau faceiro
um arco-íris se esforça no céu
enquanto caminhamos repetimos o nome
Yaki manju
Levi segue mirando as poças
e depois de quatro quadras pede pra descansar
sentamos na calçada quase seca
perto da gente dois homens conversam
um deles sentado na moto
vermelha um deles
vestido no uniforme da imobiliária
as rodas dos carros a gente vê melhor do chão
em 30 segundos estamos revigorados
uma garota sorri um boa tarde pro guri
ele me pede outro biscoito
Nhac manju
nosso caminho é sempre reto pela Rua Engraçada
na casa da esquina dois coelhos pretos
roem a grama verde com dentinhos afiados
barulho nenhum
dois minutos e dez minutos é bem parecido
se você não olha o relógio
estamos na metade do caminho
a chuva aumentou meu nariz
quero acerola do pé
ele pede mel
abro a embalagem com os dentes
temendo morrer
ele chupa o mel e se lambuza
seguimos até chegar no cacto
ele cresceu?
tá perto do terceiro andar, mãe
se você não olha
a árvore não cresce
o cacto
não cresce
à direita uma rua sem saída acaba
num muro vivo
vamos atravessar a rua
e nossas mãos grudam de mel
não quero mais, ele diz
me oferecendo os dedinhos colados
pra que eu faça alguma coisa
assumo o melzinho doce demais quase ruim
e por sorte estamos a poucos metros de uma poça funda
onde esfregamos as mãos e as enxaguamos
pra secar em seguida na camiseta branquinha
um cachorro idiota late e me assusta
a criança ri e me pede colo
Yaki manju Yaki Yaki
manju é engraçado mesmo
você sabia
que o recheio do biscoito é uma pasta
de feijão?
filho, ainda bem a gente a pé
e voltar da escola na chuva né Yaki manju?
Yaki manju é você
e comer mel pular nos rios o arco íris
ver o cacto crescer milímetros e o muro vivo
acerolas coelhos pretos cachorros meio idiotas
ainda bem essa gatinha vindo na nossa direção
ela se enrola na perna do guri depois na minha
leio Biscatinha na coleira
e até chegar em casa reforçamos os nomes
que aprendemos no caminho
temos sempre muito a aprender
Yaki manju
Biscatinha
tô torcendo pra que chova de novo
19.03.2025


Manju tem sabor de nostalgia, infância, da batchan que não tá no mesmo plano, de beisebol, de comunidade, de acema, de feira mais de antigamente, de terra roxa, de uniforme sujo, de fds e de feijão doce.
então quer dizer que o Levi manja dos manju